Un disparo en la noche: um disco manifesto do tango novo

Imagens: Julián Peralta
Imagens: Julián Peralta

Me leyó una gitana en la borra del café que vuelve el tango
Se escapó de enredadas partituras
Los que no lo conocen lo pedían
Alguien lo dio por muerto, qué locura!, si era siesta, nomás,
La que dormía.

Assim termina Vuelve el tango, escrita por Jorge “Alorsa” Pandelucos, música que abre o disco Un Disparo en La Noche, da Orquesta Típica Julián Peralta. Não por acaso, é a primeira faixa da obra lançada em 2012, que já marcou seu lugar na história como um verdadeiro manifesto ao tango novo. O disco faz um mapeamento de algumas das mais representativas composições e letras da atualidade, com diversos músicos e poetas, cantado por vozes que mantêm o tango em constante evolução. Além de novas canções, cada faixa permite conhecer bastante do cenário musical atual da capital argentina.

O novo tango tem marcas de seu tempo, com composições e maneiras de tocar que vão desde a valorização dos tangos de ontem, com releituras atuais, até inovações e mesclas com a sonoridade de outras vertentes musicais. Várias orquestras hoje se ocupam com a criação de arranjos e a composição de tangos, mantendo o gênero vivo. Desde trabalhos que se aproximam das formas de tocar de antigas orquestras até tangos de ruptura, desde discos que buscam manter viva a tradição de bailes com orquestra até outros que têm o foco em uma produção genuinamente nova e que não se destinam ao cenário milongueiro. Un Disparo en La Noche retrata um pouco esta segunda forma de fazer música, ainda que superficialmente façamos essa divisão.

Um dos diálogos mais destacados do tango atual é com o rock, música que prevaleceu no cenário argentino justamente no período em que o tango esteve em baixa. Muitas letras e composições de hoje trazem consigo estética, sonoridade e conteúdo extremamente contemporâneos, que talvez tomem de empréstimo do rock alguns elementos. Não se trata de uma mixagem, mas de um tango canção vivo que herda uma pegada muito mais enérgica, com um lunfardo que diz mais dos dias de hoje do que das décadas da primeira metade do século passado, desvinculando-se da temática clássica do tango. E outra novidade neste cenário é o intercâmbio entre artistas, com grupos e orquestras que apresentam os trabalhos de outros autores, gerando uma cena de produção musical extremamente afinada.

Julián Peralta, um dos brilhantes e empenhados expoentes da música porteña atual, reúne nesse disco tangos com um ar de virada muito consoante com os ares que vivemos. Se algumas letras falam de passado, não é mais para dizer que era melhor, mas para revisitá-lo e falar de um futuro sobre o qual pouco se sabe e onde a esperança aparece fincada com os pés no chão. Em vez da nostalgia em relação ao sul mitológico, as dores dos dias de hoje. Se o tempo e o progresso da cidade moderna trazem excessos que talvez sufoquem, a música transborda isso em melodia e sonoridade extremamente fortes, produzida por artistas que criam o tango de seu próprio tempo, como foi feito em outras épocas. Sempre em constante evolução.

O disco resultou também em um excelente documentário, de mesmo nome, com depoimentos dos músicos envolvidos. Em 2016, Julián Peralta continua sua cartografia da música porteña atual com o lançamento de Un Disparo en La Noche – Volume II, com participação de cantantes do cenário atual, como Walter “Chino” Laborde, Dolores Solá e Hernán “Cucuza” Castiello.

Aline Vianna

Faixa por faixa, o cenário do tango atual através  Un Disparo en La Noche I

VUELVE EL TANGO (Jorge “Alorsa” Pandelucos) – Martín Otaño
Jorge “Alorsa” Pandelucos foi o criador da La Guardia Herege.
Martín Otaño foi fundador do bar Sanata e cofundador do Festival de Tango de La República de La Boca.

PERDIDOS (Miguel Suárez) – Aureliano Marín
Miguel Suárez é cantor e letrista, esteve junto à orquestra Astillero.
Aureliano Marín é cantor e compositor, atualmente desenvolvendo seus projetos próprios na Europa.

ALGUNOS MIRAN, OTROS HABLAN (Juan Seren) – Black Rodríguez Méndez
Juan Seren é cantor e compositor, integra o Juan Seren Y Los Púas Abajo.
Black Rodríguez Méndez é cantor com trajetória, entre outros, junto ao Cuarteto La Púa.

HOY (Juan Subirá – Héctor García – Gustavo Santaolalla) – Juan Subirá
Juan Subirá, músico, compositor e poeta do rock argentino, é um dos fundadores da banda Bersuit Vergarabat.
Héctor “Limón” Garcia é cantor e compositor de rock e tango. Integrou a Bersuit Vargarabat e é o cantor da Orquesta Rascasuelos, que está em turnê nos EUA apresentando seu novo disco, Tangos Vivos.
Gustavo Santaolalla, produtor musical com forte ligação ao rock e ampla carreira no cinema com premiações importantes, é o compositor à frente de Bajofondo.

REGÍN (Alfredo “Tape” Rubín) – Juan Villarreal
Alfredo “Tape” Rubin é compositor, foi fundador do Cuarteto Almagro e de Las Guitarras de Puente Alsina e atualmente trabalha na produção de novo disco junto ao trio Lacruz-Heler-Nikitoff. Suas músicas são amplamente interpretadas na atualidade por outros grupos.
Juan Villarreal é cantor, atualmente à frente da Orquesta El Arranque, que lança este ano o disco comemorativo aos seus 20 anos.

CADENCIAL (Julián Peralta – Federico Maiocchi) – Julián Bruno
Julian Peralta é pianista e compositor, criador da Orquesta Típica Fernández Fierro, foi gestor do CAFF e atualmente do Teatro Orlando Goñi, professor na Escuela de Música Popular de Avellaneda e na Escuela Orlando Goñi. É diretor da orquestra Astillero.
Julian Bruno é cantor da Orquesta Típica Ciudad Baigon, reconhecida pela Legislatura Porteña em 2016 como de Interesse Cultural. Atualmente, apresentam o show Luz Artificial.
Federico Maiocchi é contrabaixista da Astillero e do Quinteto Criollo González Calo.

MI INVOLUCIÓN (Acho Estol) – Cucuza Castiello
Acho Estol é compositor, letrista e integrante, junto a Dolores Solá, do La Chicana. Em 2016, lançou seu livro de letras, Lo que hay.
Cucuza Castiello é cantor com ampla carreira nos palcos, criador dos ciclo “El tango vuelve al barrio” e “Futboltango”, entre outros, e em 2016 foi nomeado pela Legislatura Porteña como “Personalidade destacada da Cultura”.

PARA SIEMPRE (Elbi Olalla) – Victoria di Raimondo
Elbi Olalla é pianista, compositora e arranjadora, integrante do Altertango.
Victoria Di Raimondo é cantante e já esteve à frente da Altertango.

EL TANGO QUE NO SILBÓ (Juan Subirá – Salvador Batalla) – Miguel Suárez
Salvador Batalla é psicólogo e fotógrafo e trabalhou junto à Bersuit Vergarabat na produção de fotografias discográficas; escreveu a letra junto a Juan Subirá.
Miguel Suárez é cantor e já participou da orquestra Astillero.

CAPATAZ (Julián Peralta – Alejandro Guyot) – Alejandro Guyot
Alejandro Guyot é cantor, letrista e compositor. Integra o grupo 34 Puñaladas, esteve na Orquesta El Arranque entre 96 e 97 e participou de discos de diversos outros grupos atuais.

RUMBA Y TRES SALTOS (Ariel Prat – Pepe Céspedes) – Ariel Prat
Ariel Prat é cantor, compositor e poeta argentino, Bastante vinculado à murga portenha, já foi colaborador do La Chicana e de Juan Carlos Cáceres.
Pepe Céspedes é contrabaixista e compositor da Bersuit Vergarabat.

ROCANROL (Edu “Pitufo” Lombardo) – Omar Mollo
Edu “Pitufo” Lombardo é músico, compositor e cantor uruguaio.
Omar Mollo é cantor e compositor de tango, folclore e rock, com uma premiada carreira solo no tango. Nos anos 70, liderava a MAM (Mente, Alma y Materia), banda de rock que se aproximava do hard rock.

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