No Dia do Músico, nada melhor que recordar El tigre del bandoneón

Como hoje é Dia do Músico, e é difícil escolher alguém que possa representar tantos gênios que a música ofereceu, decidimos recorrer a Eduardo Arolas, personagem ao mesmo tempo mítico e fundamental. Nascido no bairro de Barracas, em 1892, praticamente junto com o tango, na época que o ritmo começava a se fazer notar nos prostíbulos de Buenos Aires, Arolas tornou-se o principal expoente na transformação de uma dança primitiva no ritmo que passou a identificar a Argentina, como explica Jorge H. Andrés neste excelente texto do La Nación. Começou tocando violão, mas logo passou ao bandoneón, instrumento que lhe transformaria em lenda.

Como era comum na época, compôs suas primeiras canções de ouvido, de forma intuitiva. Somente depois aprendeu música. Suas composições eram extremamente modernas para a época e sua importância e qualidade ficam evidentes pelo fato de que todas as grandes orquestras posteriores continuaram gravando-as. Em seus fulminantes 32 anos de vida, Arolas criou mais de cem tangos, muitos dos quais absolutamente geniais e que entraram para a história, como “Derecho viejo”, “La cachila”, “El Marne” e “Comme il faut”, desde então amplamente tocados.

Além de grande compositor, também foi diretor de orquestras e o responsável por adotar instrumentos que na época não eram usados, como violoncelo, saxofone e banjo, mas sua grande virtude era com o instrumento ao qual ficou para sempre associado e que lhe rendeu o apelido de Tigre del Bandoneón. “Era tão temperamental que às vezes o fole ficava arruinado em suas mãos, segundo explicou Enrique Delfino. ‘O bandoneón era pouco instrumento para um coração tão grande'”, ainda citando o texto do La Nación. Em sua homenagem, Piazzolla compôs “A Juan Sebastián Arolas”, comparando-o ao gênio barroco Johann Sebastian Bach.

Abaixo, uma versão espetacular da orquestra La Juan D’Arienzo para Derecho Viejo:

Arolas apresentava-se nos melhores cabarés de Buenos Aires e Montevidéu, mas também em prostíbulos da periferia, dedicava tangos a parceiros com quem depois brigaria para nunca mais voltar a falar. Sua vida pessoal também foi atribulada, marcada por desilusões amorosas e pelo alcoolismo, que o levou à morte quando vivia sozinho em Paris. Uma vida desregrada um tanto condizente com uma estrela do rock, com final digno de poeta romântico, de uma lenda que praticamente fundou o tango moderno.

Douglas Ceconello

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