Carriego, o bardo do arrabalde

Os portões do bairro de Palermo no final do século XIX, onde hoje é a Plaza Italia

Maior bairro de Buenos Aires, com subdivisões informais muitas vezes insólitas, como Soho, Hollywood, Chico e até mesmo uma Villa Freud (devido ao grande número de psicanalistas que ali residem), hoje Palermo é uma zona valorizada e rica da cidade, frequentada e habitada em grande parte por turistas e gente com plata, onde viver em um apartamento do tamanho de uma caja de sapato custa uma fortuna. No final do século XIX, no entanto, o cenário era drasticamente diferente: Palermo era um bairro marginal, afastado do centro em uma época em que o ritmo da cidade e dos transportes era mais lento. Com suas casas simples, era zona de compadritos, ocasionais peleias de faca e histórias singelas da vizinhança.

Essa era a atmosfera arrabalera quando Evaristo Carriego chegou a Palermo, ainda criança, por volta de 1890, vindo da cidade de Paraná, na província de Entre Ríos. A juventude de Carriego transcorreu de forma tão emocionante quanto uma típica tarde vadia de domingo: é provável que sua mudança para a capital tenha sido o episódio mais dramático. Em Buenos Aires, levava uma rotina tranquila, participando das tertúlias literárias onde obras e tendências eram debatidas, mas aos poucos passou a restringir seu interesse e a direcionar sua poesia para um tema em especial: o bairro.

Ya los de la casa se van acercando
al rincón del patio que adorna la parra,
y el cantor del barrio se sienta, templando,
con mano nerviosa la dulce guitarra.

[Trecho do poema En el barrio]

Mural em homenagem a Carriego na esquina de Honduras e Araoz, em Palermo

Ao debruçar sua obra para a paisagem geográfica e humana de Palermo, Carriego tornou-se pioneiro na descoberta das possibilidades líricas do arrabal e na criação de uma certa mitologia do subúrbio. Assim, influenciou grande parte da poesia porteña posterior e, em especial, as letras de tango, que depois dele passaram a cantar as delícias e as agruras da vida que acontecia distante da Plaza de Mayo. Carriego suscitou admiração em um contemporâneo em específico: Jorge Luis Borges, que desde a biblioteca do pai vivia fascinado por aquele mundo que o poeta entrerriano cantava em suas poesias. Borges lhe dedicou um extenso texto chamado Evaristo Carriego, onde discorre sobre a história do bairro e a trajetória pessoal e literária do bardo do arrabal. “Carriego foi o homem que descobriu as possibilidades literárias dos decaídos e miseráveis subúrbios da cidade: o Palermo da minha infância. Sua carreira seguiu a mesma evolução do tango: avassalador, audaz e valente no começo, logo convertido em sentimental”, disse Borges sobre o poeta que influenciou a sua própria versão imaginada das orillas de Buenos Aires. Alguns mais exaltados chegam a proclamar Carriego como o próprio criador de uma cultura do bairro, que se tornaria tão cara para os porteños e, por consequência, para o tango.

El barrio le admira. Cultor de coraje,
conquistó, a la larga renombre de osado;
se impuso em cien riñas entre el compadraje
y de las prisiones salió consagrado.

[Trecho do poema El guapo]

Casa onde viveu Evaristo Carriego, na Calle Honduras 3784, no bairro de Palermo, hoje em situação de abandono

Misas herejes foi o único livro publicado por Carriego em vida. Falecido em 1912, aos 29 anos, teve sua obra restante reunida e publicada no ano seguinte, sob o título La canción del barrio (aqui, ambos os livros na íntegra). É homenageado no tangazo A Evaristo Carriego, de Eduardo Rovira (aqui na bela versão original, que parece nos remeter diretamente à vida barrial de Carriego, e aqui com Osvaldo Pugliese, que o transformou em um êxito) , e também na Milonga Carrieguera, que faz parte da ópera María de Buenos Aires, de Astor Piazzolla e Horacio Ferrer.

Também recebeu reverência de Homero Manzi na letra de El ultimo organito, no trecho que lembra de “el ciego inconsolable del verso de Carriego, que fuma, fuma y fuma sentado en el umbral”, em referência ao poema Has vuelto. O filme La calle junto a la luna, de 1951, é inspirado em sua vida e na cidade do seu tempo. Em Buenos Aires, há uma rua que leva seu nome e, por algum motivo indecifrável, está localizada em Flores, bem distante daquele seu querido Palermo antigo – como de certa forma também é o próprio Palermo atual.

Douglas Ceconello

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