San Pugliese e o cravo vermelho sobre o piano

Nome fundamental da música porteña no século XX e influência inegável de muitas orquestras atuais, Osvaldo Pugliese preferia ser encarado como um operário que trabalhou pelo tango durante seus quase 90 anos, o que não o impediu de ser genial e revolucionário, mesmo precisando superar as inúmeras perseguições e detenções que sofreu por suas convicções políticas. Após sua morte, mesmo ateu, foi convertido, mais por reconhecimento do que por brincadeira, a santo protetor dos músicos populares. 

Nascido em 1905, na Villa Crespo, na época um bairro proletário, Osvaldo Pedro Pugliese sofreu influência musical desde cedo. Seu pai era flautista e seus dois irmãos tocavam violino, que também o interessou inicialmente. No entanto, logo aderiu ao instrumento que o eternizaria: o piano. Aos quinze anos já trabalhava profissionalmente no cenário tanguero e antes dos vinte já havia composto diversos tangos, inclusive Recuerdo, que se tornaria um dos seu clássicos.

Após peregrinar por diversos conjuntos e tocar com lendas como Roberto Firpo e Pedro Maffia, em 1939 Pugliese criou sua própria orquestra, que se manteria na ativa por 55 anos e inovaria o mundo do tango tanto em termos de estilo e interpretação quanto de organização, já que funcionava em sistema de cooperativa: tudo era decidido em assembleia, desde os arranjos até a divisão do dinheiro. Hoje, esse sistema colaborativo é adotado por vários novos conjuntos.

O mesmo empenho que demonstrava ao piano Pugliese também expressava em suas convicções políticas. Em 1935, participou da fundação do primeiro sindicato de músicos da Argentina. Um ano depois, foi um dos primeiros filiados do Partido Comunista.  O ativismo seria responsável por inúmeras detenções de Pugliese ao longo de praticamente TODAS as décadas em que atuava com sua orquestra, e não apenas nos governos militares, mas também nos períodos democráticos, inclusive quando Perón foi eleito presidente, em 1946. Porque Pugliese, além da orientação marxista, representava um perigo para um importante trunfo peronista: mostrava que poderia haver ascendência popular mesmo fora do movimento, como explica este excelente artigo de María Mercedes Liska. Em 1974, durante seu terceiro mandato, Perón pediria desculpas a Pugliese pelas detenções nos anos anteriores.

Muitas vezes, o prendiam antes de uma apresentação, para liberá-lo logo após o horário do concerto. Em outras o liberavam da cadeia apenas para tocar. Ameaças de bombas cancelavam as apresentações. As rádios eram impedidas de tocar suas músicas. Os guardas, muitos seus fãs, o tratavam com reverência, quase pedindo desculpas pelo constrangimento. Uma entrevista sensacional publicada em 2006 pelo jornal Página 12 nos apresenta um enigmático personagem que testemunhou toda aquela função.  Saul Cascallar, que também foi colega de escola de ninguém menos que Júlio Cortázar e teria pegado EVITA PERÓN no colo, portanto um homem que estava sempre no lugar certo e com as pessoas certas, acompanhava a cena tanguera com assiduidade e de repente, não mais que de repente, se viu preso junto com Pugliese.

Segundo Cascalllar, por mais que os outros presos tentassem impedir, o maestro não se furtava às habituais funções do cárcere, como varrer o chão e descascar batatas.  Conta também que certa vez Pugliese estava chegando para tocar em um clube e a polícia o aguardava. O dono do bolicho se revoltou com o prejuízo financeiro que se avizinhava e disse que só permitiria a prisão depois da apresentação, então Pugliese fez o show mais longo de sua vida, tocando uma versão interminável de La Cumparsita enquanto LOS CANAS aguardavam pacientemente para levá-lo preso.

Os frequentes problemas com a polícia não tiveram interferência na popularidade da orquestra, que inclusive tinha uma torcida fanática que a seguia em todas as partes. Eram jovens entusiastas do estilo e do próprio Pugliese que penteavam o cabelo para trás e usavam a mesma armação de óculos do ídolo. Na Villa Crespo, território puglieseano por excelência, as jovens da época vestiam-se de rainhas do carnaval, usando roupas brancas que levavam estampados nomes de tangos de Pugliese: La Yumba, Negracha, Malandraca. Don Osvaldo era um tango star comunista, operário e sóbrio: passou mais de setenta anos frequentando a noite sem se tornar boêmio, o que, convenhamos, é prova de uma resistência feroz. A mesma resistência que tinha para reclamar de qualquer coisa, inclusive das prisões. Era a vida que havia escolhido, as convicções que defendia, nas buenas, é claro, mas en las malas mucho más.

Em resposta a suas prisões, as ruas amanheciam pintadas com “El tango está preso. Libertad a Osvaldo Pugliese” e nos jogos de futebol os torcedores soltavam balões com mensagens de protesto. Quando estava detido, fazia questão de que sua orquestra continuasse tocando, o que ela fazia com abnegação, mas nunca com um substituto ao piano, que permanecia solitário no palco e recebia simplesmente um cravo vermelho para lembrar a ausência do maestro por questões políticas.

Pugliese sempre fez questão de salientar que era um músico popular e seu público, especialmente nos anos 40, quando já se destacava nos bailongos de Buenos Aires, era majoritariamente operário. “Nosotros somos un poroto de la máquina tanguera” é a frase que sintetiza o desejo de Pugliese em relação ao tango: que fosse sempre uma música popular, que chegasse à classe operária.  Seu estilo era exigente para os milongueros, mas sempre se ateve à importância do baile e levava a sério o conselho do pai: “Quando tocar tango no piano, olhe para os pés dos bailarinos”.  O acento rítmico que impôs antecipou figuras como Horácio Salgán e Astor Piazzolla, que o reconheceria como seu maestro e com quem realizou um concerto antológico em Amsterdam.

Ainda vivo, Pugliese já era encarado como parte fundamental da história do tango. Em 1985, sua orquestra chegou ao Teatro Colón para comemorar os 80 anos do maestro, com um detalhe que expressa bem sua relevância: era a primeira vez que o tradicional teatro porteño abria suas portas ao tango. Até então, havia abrigado apenas música clássica. O concerto reuniu vários músicos históricos que haviam passado por sua orquestra para celebrar o maestro.

Pugliese era comunista convicto, logo ateu. Inclusive, se diz que reagia com bom humor quando alguém lhe dizia “Don Osvaldo, não morra nunca”, respondendo marotamente: “Que Deus te ouça!”.  Mas infelizmente, como é costume, ele não ouviu, e em 1995 Pugliese faleceu após breve enfermidade. O curioso é que o gênio comunista, assim que morreu, passou a ser elevado quase imediatamente ao status de santo protetor e benfeitor dos músicos populares, para quem inclusive foi criada uma oração. Invocar seu nome três vezes antes de uma apresentação é garantia de sorte, ou pelo menos afasta a MUFA, o azar. E até hoje, antes de subir no palco, é para San Pugliese, santo mais pela obra do que pela crença, devoto absoluto do tango, que os músicos tangueiros pedem proteção.

Abaixo, Osvaldo Pugliese e sua orquestra tocando La Yumba no histórico concerto de 1985, no Teatro Colón.

Douglas Ceconello

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