El Tábano, berço de Polaco Goyeneche

Como muitas lendas do tango, Roberto Goyeneche imortalizou vários temas que cantavam o sul de Buenos Aires. El sur é território mítico do tango e seu significado vai além das implicações geográficas – fala da pureza, da vida simples, das memórias de um certo arrabal perdido no tempo. O berço de Polaco Goyeneche, no entanto, está no outro extremo da cidade. Seu bairro de origem é Saavedra e, colado nele, surge o pequeno bairro de Coghlan, onde fica o clube El Tábano, que o viu cantar pela primeira vez – e pelas primeiras muitas vezes. 

Com modesta área de 1,3 km quadrado, o bairro cresceu no entorno da Estación Coghlan, típico exemplo de arquitetura inglesa, inaugurada ainda no fim do século XIX. Nas ruas próximas à estação, as casas refletem seu estilo e uma caminhada por lá nos remete mais à uma pequena cidade europeia do que aos febris bairros porteños centrais. Os hábitos singelos resistem, mate na calçada e futebol no meio da rua, ainda que a chegada de gente nova justamente em busca de sossego esteja trazendo junto certa modernidade suspeita.

Por algum motivo que foge à compreensão contemporânea, há duas passagens paralelas que homenageiam filósofos gregos: Plutarco e Sócrates. Uma quadra ao lado, aparece sem alarde a fachada do El Tábano, que nos abre as portas para apresentar outro homenageado, personagem mais importante para o bairro do que qualquer pensador, que fez do traçado de Buenos Aires o palco de sua filosofia boêmia: inaugurado em 1930, o clube presenciou a pleno a idade de ouro do tango e, no seu palco, Roberto Goyeneche esboçou os primeiros versos a partir de 1944. Com apenas 18 anos, El Polaco era um precoce frequentador dos cafés e cabarés e sentia nas veias todo o furor provocado pelo avançar da Guardia Nueva.

Próximo à barra, um quadro enorme, presente de outro clube em alguma data comemorativa, diz que “nos restam poucos Luna de Avellaneda. Fazem falta muitos Tábano de Saavedra“, fazendo referência ao filme de Juan José Campanella, estrelado por Ricardo Darín. El Tábano está no seu terceiro endereço, sempre perto de onde saiu e provavelmente próximo de onde estará. Longe da vizinhança, perderia sua aura, seu sentido. Suas paredes mapeiam grande parte da história do bairro. Fazem referências a nomes históricos que por ali passaram – da música e também do futebol, como Julio Cozzi e Ruben Sosa, que chegaram até a seleção argentina, surgidos no Platense, outro dos grandes orgulhos do bairro e clube do coração de Goyeneche – nos arredores do Parque Saavedra, uma esquina ostenta um mural de Polaco ao lado do escudo do clube. Era no Tábano que la hinchada do Calamar, como o Platense é conhecido, fazia aquele imprescindível aquecimento anímico e etílico antes de rumar para a cancha. Ainda hoje, El Tábano se apresenta como o lugar em que “dentro de él perdura el culto a la amistad. Se respira pasión por el futbol y el tango“.

Nessas últimas semanas, os vecinos certamente estão empolgados com a campanha do Platense, que lidera a terceira divisão argentina. Camisa tradicional que frequentou a elite do futebol nacional até o final dos anos 1990, além do ilustre torcedor, o clube traz em sua criação uma história que o candidata fortemente ao posto de más tanguero: em 1905, alguns muchachos de bolsos vazios receberam a preciosa dica para apostar em um cavalo que correria no Hipódromo de Palermo. Assim procederam e, vejam só, o pingo de fato ganhou, e cada um deles embolsou a fortuna de 89 dólares, mais do que suficiente para fazer o que qualquer jovem com algum discernimento faz nessas ocasiões: fundar um clube de futebol.

Voltando ao GOTAN, naqueles tempos inaugurais arriscando os primeiros temas no clube do seu bairro, Goyeneche ainda não podia se dar ao luxo de dedicar-se exclusivamente ao tango. Cantor sem formação acadêmica, também trabalhou como mecânico, taxista e motorista de ônibus – dirigia o que atualmente é a línea 19, que faz o trajeto entre o centro e o norte de Buenos Aires. O percurso dentro do tango foi trilhado preferencialmente à noite e seu talento o levou ao conjunto liderado por Horacio Salgán (onde formou dupla com o cantante Ángel Díaz, que lhe batizou de Polaco devido ao cabelo longo e loiro) e, a partir de 1956, à orquestra de Aníbal Troilo, com quem gravaria versões antológicas e de quem se tornaria grande amigo.

O próprio Pichuco convenceu Goyeneche a deixar a orquestra para se lançar como solista. E foi a partir deste ponto que o motorista de ônibus engatou quinta marcha rumo ao panteão do tango. Segundo Ricardo García Blaya, fundador do fundamental site Todo Tango, “se tivéssemos que escolher um personagem que sintetizasse os últimos trinta anos do tango, sem nenhuma dúvida surgiria o nome de Polaco Goyeneche, não apenas por se tratar de um cantor extraordinário, mas também e fundamentalmente por ser o arquétipo da última camada de uma estirpe e boemia porteña”. Dos anos 1960 até 1994, quando morreu, Goyeneche incorporou como ninguém o espírito do tango e da noite de Buenos Aires.

Chama a atenção a variedade do seu repertório. Interpretou desde os tangos mais antigos, passando por várias canções consagradas por Carlos Gardel, até expoentes da vanguarda que abalou o cenário musical porteño – em uma atitude atrevida, em 1969 gravou a primeira (e definitiva) versão de Balada para um loco (letra de Horacio Ferrer com música de Piazzolla), música recém-lançada que causou rebuliço e acendeu com álcool o debate sobre o que podia ser considerado tango.

Tamanha era a capacidade vocal e a força interpretativa de Goyeneche que ele se apropriou artisticamente de tangos clássicos, já famosos através de outras vozes lendárias. Conforme García Blaya, ele elevou Naranjo en flor a uma outra dimensão e se tornou “dueño absoluto” de La última curda.  Temas como Tinta Roja, Sur e Uno também tornaram-se marcas registradas do repertório de Polaco, que em 1988 chegou a atuar no filme Sur, dirigido por Fernando Solanas. Sua voz ainda ressoa como um trovão na interpretação de Vuelvo al sur, música que Solanas compôs para o filme,  quando já ameaçava o caminho de volta aos camarins — ou, mais provável, a algum outro bar, entre o fim da noite e o começo da manhã.

Mais de duas décadas após sua morte, Goyeneche continua ecoando pelas ruas de Buenos Aires. Sua lenda só aumenta e sua obra persiste. Porque merece e porque precisa persistir. Como persiste El Tábano, ainda ponto central na vizinhança, trincheira do tango e do Platense, com aulas de dança, apresentações de orquestras nos fins de semana e outras funções, onde uma xícara de café sorvida por horas ou uma minuta caseira e honesta apresentada no tempo exato e inexato em que operam os porteños, que têm uma dimensão de tempo muito peculiar, parece um convite irrecusável para que se olhe para trás e ao redor.

Abaixo, Goyeneche cantando a sua La ultima curda e aqui uma maravilhosa compilação de vídeos dele.

Douglas Ceconello

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