Há 30 anos, estreava o filme Sur, ícone político e tangueiro

Hoje, 5 de março, faz exatamente trinta anos da estreia do filme Sur, de Fernando “Pino” Solanas. Vencedora de diversos prêmios, inclusive de melhor diretor no Festival de Cannes de 1988, a película teve importante significado para o contexto argentino da época: foi lançada menos de cinco anos após o fim da sangrenta ditadura militar e buscava recuperar uma identidade nacional perdida. Para isso, amparou-se, em termos estéticos e musicais, numa atmosfera prioritariamente tangueira.

Após o sucesso de Tangos. El exilio de Gardel, de 1985, o novo filme de Solanas era extremamente aguardado, e de fato se tornou um sucesso de público e crítica, sendo sua obra mais bem-sucedida financeiramente. Se em Tangos o diretor falava daqueles que precisaram deixar o país, em Sur se voltava justamente para quem permaneceu na Argentina e tentou sobreviver de uma forma digna durante um dos períodos mais tenebrosos de sua história. Na narrativa, situada em 1983, Floreal, ex-trabalhador de um frigorífico, tenta retornar para sua casa, no bairro de Barracas, após cinco anos preso, mas vacila e permanece errando pelas ruas da vizinhança, em uma atmosfera de temor e opressão.

Uma carta dirigida aos espectadores, assinada pelo próprio Solanas, diz que “Sur nos conta uma história de amor. É o amor do casal e também uma história de amor por um país. É a história de um regresso. Sur nos fala do reencontro e da amizade. É o triunfo da vida sobre a morte, do amor sobre o rancor, da liberdade sobre a pressão, do desejo sobre o temor. Por isso é a história de um regresso. Também quero dizer que Sur é uma homenagem a todos que, como meu personagem tartamudo, souberam dizer NÃO“.

O tango está presente de forma indissociável em Sur. A música ficou sob responsabilidade de Astor Piazzolla (Fito Paez também participa, além de atuar). Fernando Solanas compôs La milonga del tartamudo, interpretada por ninguém menos que Alfredo Zitarrosa, e fez a letra de Vuelvo al sur, música de Piazzolla que imediatamente se tornou um clássico. Também há tangos de Anibal Troilo, Mariano Mores e Homero Expósito, interpretados por Roberto Goyeneche, que vive o papel de Amado, de uma forma que apenas ele poderia fazer.  Polaco Goyeneche vivera em Buenos Aires durante a ditadura e também numa época mais larga de declínio do tango, que ele ajudou como ninguém a manter vivo. De certa forma, Goyeneche era a própria encarnação do tango naquele momento.

Sur tem um papel fundamental no renascimento do tango após a ditadura argentina, ao menos na cinematografia. Trata-se do primeiro filme a contar com uma trilha sonora basicamente tanguera após o retorno da democracia, sendo que o tango, enquanto música e manifestação popular, sofrera duramente com a repressão militar, após já levar um baque com a popularização do rock a partir dos anos 1960. Segundo um excelente texto de 2005 assinado por Daniela Schvetz e Carolina Selzer, “Solanas volta ao tango na busca de uma identidade, utiliza-o como recurso simbólico, como metáfora, como síntese cultural. Instala novamente o tango na cena do cinema argentino“.

A referência ao Sul é fundamental, em termos geográficos, culturais e simbólicos. Após anos de degradação social, volver al sur representa uma tentativa de recuperar a pureza, um esforço pelo recomeço. “O sul é o lugar onde todos os sonhos são possíveis, é o sul da cidade (e também um bar chamado Sur, ali), o sul do país, o sul do continente. É a utopia dos homens que sonharam um país melhor; um Sul livre em relação a um norte opressor e ditador. E é também o cenário do reencontro com uma mítica esquina tangueira. O sul é uma maneira de ver e sentir o que é nosso, é identidade“, expõe o texto já citado. Voltar para casa, buscar as próprias origens e mesmo idealizá-las, neste caso, é o maior ato de liberdade.

Abaixo, dá para assistir ao filme na íntegra.

Douglas Ceconello

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