As mulheres e o tango: mais do que musas, criadoras – As pioneiras

A impressão que temos é que apenas de uns anos para cá o tango começou a deixar de ser machista, seja pela revisão de alguns códigos da milonga ou pela forte presença das mulheres no cenário musical. No entanto, a participação feminina sempre foi expressiva e, mesmo no período de consolidação do tango, nas primeiras décadas do século XX, era frequente que orquestras formadas por várias instrumentistas se apresentassem nos cafés (e nas mesmas condições que os músicos homens, muitas vezes tocando por horas a fio). Também as DJs daquela época ganharam notoriedade: eram as vitroleras, que frequentavam os bares e cafés e colocavam seus fonógrafos para animar o público. Além das instrumentistas, das DJs e das cantoras (sobre estas já escrevemos em outro momento), as mulheres compuseram música e escreveram letras de tango desde seus princípios, ou até mesmo antes.

Nem sequer é uma mentira dizer que a presença feminina no tango começou antes mesmo do surgimento do gênero, porque a primeira mulher a compor tangos chegou a Buenos Aires em 1868, uns bons anos antes do ritmo começar a ganhar as casas de reputação duvidosa das margens da capital argentina. Nascida em Cádiz, na Espanha, Eloisa D’Herbil de Silva era musicista com formação em piano e aluna de Franz Lizt. Ela começou a compor juntamente com os pioneiros do sexo masculino e nos seus cento e poucos anos de vida deixou mais de cem obras, grande parte tangos como “Que sí que no”.

A espanhola Eloisa não estava só naqueles anos de formação do tango. Nascida em La Plata, em 1898, Maria Luisa Carnelli, além de escritora jornalista e poetisa, também foi letrista de tango, gravada inclusive por Carlos Gardel. São suas as letras de “Cuando llora la milonga”“Pa’l Cambalache” e “Se vá la vida”, esta com música de Edgardo Donato, que se tornou um grande sucesso na Espanha com a voz de Azucena Maizani, também letrista e compositora que tem quase trezentas gravações e foi acompanhada por algumas das maiores orquestras de sua época, como a de Francisco Canaro. Entre seus tangos mais famosos, está Pero Yo Sé, muito conhecido, que também foi gravado pelas consagradas vozes de Adriana “La Gata” Varela e Soledad Villamil.

Se o ambiente tanguero, mesmo com todas as ponderações possíveis, mantinha as portas abertas para as mulheres, o mesmo não acontecia em outras esferas sociais: Maria Luisa Carnelli sempre usou pseudônimos masculinos (Mario Castro ou Luis Mario) para assinar suas obras, especialmente para omitir seu laburo tanguero do pai, nem um pouco simpático ao gênero e tudo que o rodeava. Chama a atenção que, mesmo naquela época, Carnelli já recebia direitos autorais por suas letras, dinheiro que consistia importante fonte de renda: conforme ela mesma afirmou, apenas a letra de “Cuando llora la milonga”, música de Juan de Dios Filiberto, rendeu mais do que publicando oito livros.

Se é verdade que muitas vezes as mulheres precisavam se vestir de homens para passar despercebidas, especialmente quando tocavam nas orquestras, outras chutaram a porta da história sem qualquer pudor. Considerada a primeira cantante arrabalera do tango, Rosita Quiroga também foi responsável pela primeira gravação elétrica na Argentina, junto com a companhia Victor, em 1926. Um pouco antes, na Villa Crespo, “Paquita” Bernardo já recebia 600 pesos por mês, uma fortuna na época, para tocar com sua orquestra nos cafés da Calle Corrientes. Considerada a primeira mulher a tocar bandoneón de forma profissional, era a diretora da “Orquesta Paquita”, integrada por nomes que entrariam para a história do tango, como Osvaldo Pugliese e Elvino Vardaro.

São nomes fundamentais da odisseia tanguera ao longo das décadas, que desbravaram os caminhos para que o cenário fosse cada vez mais aberto, e deixaram forte marca na história tanto pelo pioneirismo quanto pela qualidade de suas obras, como prova Maruja Pacheco Huergo, uma das grandes compositoras de seu tempo: seu tango El Adiós é um dos mais tocados nas milongas e um dos preferidos nas apresentações dos melhores bailarinos mundo afora. Abaixo, duas belas interpretações de El Adiós por bailarinos de diferentes gerações.

“Sinfonia de Arrabal” também é de autoria de Maruja (letra e música), aqui bailado por duas mulheres:

Se desde os primeiros acordes do tango e desde os primeiros passos inventados nos pátios das casas do sul da cidade as mulheres dividiram os pisos e as partituras com os homens, hoje não é diferente. Mais do que nunca, elas seguem compondo e escrevendo tangos e serão tema do nosso terceiro texto da série sobre las mujeres que fizeram e continuam fazendo o tango.

Aline Vianna e Douglas Ceconello

 

Referências consultadas:
Grandes mujeres en la historia del tango
Todo Tango
Tango Pasión Argentina Cap. 4 Mina que fue

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