As mulheres e o tango: mais do que musas, criadoras – as nossas contemporâneas

Tem sido ótimo descobrir cada uma destas mulheres que, entre letras de amor, de protesto ou de crônicas de seu tempo, entre tangos mais roqueiros ou milongas candombeiras, seguem compondo e escrevendo a discografia contemporânea do tango com obra lindas.

Algumas trilham caminhos mais solitários, outras constroem seu trabalho com os colegas homens e há ainda aquelas que se unem para levar o tango adiante. É o caso de China Cruel, grupo formado por mulheres que tocam suas próprias músicas. Uma dos temas mais emblemáticos, Ni una menos, é um manifesto contra a violência perpetrada contra as mulheres.

Ahora estamos juntas, ninguna está sola,
lastimando a una, nos herís a todas;
porque ya no existen dolores ajenos
hoy nos duele a todas, no habrá ni una menos.
Gritaremos fuerte por las murieron,
por las que callaron, las que no pudieron
escapar a tiempo, juntar el valor,
ver que era posible una vida mejor.

Trecho do tango Ni una menos, do China Cruel.

À frente do grupo China Cruel está Veronica Bellini, pianista e compositora que já conta com mais de 40 obras entre tangos, valsas e milongas, além de folclore e outros estilos.  O site Tandas Nuevas armou uma tanda com composições delas, que, mesmo não tendo o objetivo principal de serem bailáveis, são um lindo convite à pista.

As bailarinas Aurora Lubiz e Veronica Alvarenga em uma apresentação na Milonga “La Marshall”, com o tema de China Cruel:

Outra mulher que não só compõe, mas também dirige um grupo de músicos é Elbi Olalla. Pianista, foi fundadora, em 2000, junto com a cantora Victoria Di Raimondo, do Altertango, que está com disco novo, Sie7e, um disco muito atual, com composições do grupo e de outros músicos contemporâneos. Olalla também realiza vários outros trabalhos, como o recente disco Piano Canción, junto com Alejandro Guyot. Abaixo, um tema dela, bastante visceral, Para siempre, que também foi gravado pela Orquesta Típica Julián Peralta, ambas versões cantadas por Victoria Di Raimondo.

Victoria Di Raimondo, que é cantora e letrista, hoje está no Cuarteto La Púa. O grupo lançou recentemente o disco Mariposa Muerta, com composições novas e uma espécie de manifesto cultural do tango atual, já que reúne trabalhos de vários músicos contemporâneos. Uma das canções de Mariposa Muerta é de Victoria: chama-se Mañanita e traz uma delicadeza linda, traduzida pela dona de uma voz marcante.

Entre as mulheres que compõem e dirigem outros músicos, como fazia Paquita Bernardo no início do  século passado com seus menos de 25 anos de idade, está Analia Goldberg. A pianista fez parte de formações importantes do tango argentino, como a Orquesta Color Tango (por 11 anos) e o Cuarteto Almagro, com Alfredo Tape Rubin (inclusive há uma valsa do compositor, Analia, supostamente dedicada a ela, que também assina a música Embrujado, tema do disco Reina Noche, de Rubin com Las guitarras de Puente Alsina). Atualmente, Analia dirige a Orquesta Analia Goldberg e a Chino Laborde Orquesta Típica. Já esteve à frente do Cátulo Tango e de Ojos de Tango. Analia também é mentora e diretora do Oliverio Girondo Espacio Cultural, na Villa Crespo, um lugar com uma intensa e maravilhosa agenda tangueira, de shows e milongas. A seguir, Oxidado, tango dela executado e gravado pela Color Tango, que está no disco Pugliese Inedito.

Marisa Vázquez tem uma carreira levada em um passo mais independente, mas também mais plural. Integrou a Orquesta Nacional de Musica Argentina Juan de Dios Filiberto, foi vencedora do concurso “Nuevos Artistas” para a programação dos Bares Notables 2005, participou de festivais em diversas cidades do mundo, tem uma agrupação própria e canta com outros grupos excelentes do tango atual, como Orquesta Típica La Vidu e Sexteto Visceral. Além de cantora, é compositora e letrista e, assim como as que já mencionamos, arrisca-se, como todo artista que cria, aos ouvidos já acostumados a outras canções. Em seu disco Esa Mujer figuram nove composições próprias.

Veronica Bellini, Elbi Olalla, Victoria Di Raimondo, Mariza Vázquez e Analia Goldberg obviamente não são as únicas a compor e escrever tangos atualmente. Juntam-se a elas outras incríveis representantes da pulsante cena porteña. Ana Sofia Stamponi, por exemplo, traz o tango no sangue. Neta de Hector Stamponi e filha de Aída Stamponi, desde muito cedo estudou piano, canto e guitarra. Após integrar diversos grupos de folklore, sempre compondo e escrevendo, em 2013 formou o Trío Almagro, junto aos violonistas Nico Pérez e Lucas Cabello.

À frente do conjunto La Vagabunda está a compositora Cintia Trigo, também responsável pela voz e violão. Com um repertório variado, que inclui folklore, valsa, candombe e tango, o grupo deve lançar seu primeiro disco em breve.

Outra voz expressiva da sua geração é Natalí Di Vincenzo, que há dez anos participa da cena tanguera. A cantautora já gravou e se apresentou com o Quinteto Negro La Boca e, em 2015, formando dupla com o violonista Alejandro Varaldo, lançou seu primeiro CD, Dos Tiempos, homenagem a Discépolo e José Maria Contursi, que traz dois temas de sua autoria.  No Volume 2 de Un disparo en la noche,  da Orquesta Tipica Julián Peralta, obra fundamental do tango contemporâneo, Natalí participa cantando El derrumbe, tema composto por ela mesma. Recentemente, formou o Quinteto Natalí Di Vincenzo, que interpreta tangos de sua autoria.

Se existe uma quase infinidade de tangos, milongas e valsas já compostos neste mais de um século de tango, alguns vivos, outros esquecidos nas partituras, também se multiplicam novas canções de autoras e autores conectados com o tempo de hoje. Eles produzem sonoridades que respondem de uma forma talvez mais coincidente com o modo como se escuta música atualmente e também com letras que já não correm o risco de serem datadas em um passado que não vivemos. De forma geral, são artistas que valorizam e continuam regravando e apresentando as obras consagradas de seus antecessores, mas não se detêm a isso, indo além e mantendo o tango vivo. Buscamos aqui resgatar suas novas produções, mas em uma busca rápida se encontram trabalhos seus com as obras já conhecidas nossas.

Este é o terceiro de nossa série de posts específicos com as mulheres porotas do tango. Já escrevemos sobre algumas cantantes e também sobre as primeiras compositoras e letristas. Aguante chicas!

Aline Vianna

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