O carnaval que se vive no Rio da Prata

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Estão chegando os quatro dias loucos tão esperados em grande parte da América do Sul. É hora de extravasar alegria e pelo continente fazemos isso com muito ritmo, tambores e cores, cantando a plenos pulmões. Se aqui no Brasil o domínio indiscutível é do samba, das marchas e do axé, entre outros ritmos nacionais, os hermanos uruguaios e argentinos têm outros sonidos que comandam a festa.

Por cuatro días locos
que vamos a vivir.
Por cuatro días locos
te tenés que divertir.
Por quatro dias locos
(Letra e música de Rodolfo Sciammarella,
aqui na voz de Alberto Castillo)

No filme Luna de Avellaneda,  a sequência de abertura é uma baita festa que abre com nada menos que Alberto Castillo (vivido por Chino Laborde, um dos grandes cantores da cena contemporânea), grande nome do tango, animando a festa com Así se baila el tango e a carnavalesca Siga el baile.  Castillo foi médico, ator e cantor de tangos. A história da pelicula é sensacional e segue narrando os dramas de um clube de bairro. A abertura é uma bela ilustração de como a relação entre os diferentes ritmos de origem africana marca a forma como se vive o Carnaval no Rio da Prata. Alberto Castillo, aliás, é o homenageado das Milongas de Carnaval de 2017 em Buenos Aires, iniciativa do coletivo cultural El tango será popular o no será nada da qual participam grandes músicos e bailarinos, com direito a milongas realizadas na rua.

Festa com raízes africanas na latinoamérica, o Carnaval tem o candombe e a murga como expressões fortes no Uruguay e na Argentina, ainda que sejam bem diferentes em cada país. O candombe é uma manifestação cultural de origem africana que tem a música tocada com tambores como uma característica principal. O candombe uruguaio e o argentino têm sonoridades diferentes, inclusive números de tambores diferentes, mas ambos influenciaram, especialmente, a milonga. Em Montevideo se pode escutar as  llamadas durante o ano inteiro nos bairros Sur e Palermo, e no carnaval os grupos se reúnem em grandes desfiles. Em Buenos Aires, é possível ouvir e acompanhar o candombe nos bairros do sul, como no encerramento da Feria de San Telmo, aos domingos, quando sempre se é possível ouvir um bom som por lá.

Já as murgas são manifestações musicais, mas bastante diferentes entre Uruguay e Argentina. Na Banda Oriental, a murga é baseada em vozes, na maioria masculinas, que cantam em coro temas ligados à sociedade, sejam críticas políticas, contestações ou ironia a hábitos cotidianos. São poucos os instrumentos musicais e o aspecto teatral é muito forte.  Entre os muitos grupos existentes na capital uruguaia, nomes como Araca La Cana, Falta y Resto e a famosíssima Agarrate Catalina. Para quem visitar Montevideo, aliás, também vale a pena uma visita ao Museo del Carnaval depois daquele assado com medio y medio no Mercado del Puerto, que fica ali pertinho.


Murga Los Autenticos de Boulogne no Parque Centenario, em Buenos Aires

Na Argentina, a murga está presente tanto em Buenos Aires quanto em algumas províncias. Ainda que em formatos diferentes entre interior e capital, ela tem uma expressão predominantemente musical e alguns dançarinos animam a festa com saltos alucinados e passos extravagantes e rápidos. Visualmente, lembra um pouco algumas formas do carnaval brasileiro, como os blocos de rua.  Geralmente, os nomes dos grupos fazem referência aos bairros, como Los Chiflados de Boedo, Los Calaveras de Constitución ou Los Fantoches de Villa Urquiza. Na capital da província, La Plata, o Carnaval também é forte e durante o ano acontecem diversos festivais de murgas. Argentina e Uruguai não são os únicos que têm murga, também presente no Chile e na Colômbia, por exemplo.

Vamonos todos al carajo,
cantando esta cruel canción,
siempre fue todo un fracaso
y así bailando, vamonos todos al cajón.
Murga Cruel (Letra e música de Juan Carlos Cáceres)

O compositor e murguista argentino Juan Carlos Cáceres, falecido em 2015, empenhou-se como poucos em realizar este intercâmbio de diferentes sons. Adepto da teoria de que o tango teve origem e sofreu maior influência da música africana, Cáceres foi mestre em trazer de volta esses ritmos afros como o candombe, mesclando-os ao tango e à milonga, praticamente criando um gênero próprio – o tango negro.

Outras formações mais recentes dão esse tom festivo e carnavalesco ao tango e à milonga, como o Amores Tangos e a Orquesta Típica la Vidu, inclusive com a participações de percussão marcante e até murgas em seus temas. O último disco da Orquesta Típica Misteriosa Buenos Aires, por exemplo, encerra com Tamboriles, milonga com forte pegada candombera.

São exemplos de como os ritmos musicais sul-americanos são móveis e se entrelaçam, em uma verdadeira folia sonora. Dentro de suas particularidades, samba, candombe, milonga e tango têm muito mais em comum do que a primeira impressão do ouvido pode acusar.  Exatamente como o carnaval nosso e dos hermanos: com bloco de rua ou com murga, o que interessa são os quatro dias loucos até que chegue a sempre inglória quarta-feira de cinzas.

 

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